Cabo Verde: Dez ilhas de saudade e morabeza no meio do Atlântico
Cabo Verde é um milagre improvável. Dez ilhas vulcânicas perdidas no Atlântico, a 570 quilómetros da costa senegalesa, batidas pelos ventos alísios, atingidas por secas recorrentes. Nenhum recurso natural significativo, sem petróleo, sem minérios, apenas 10% de terras aráveis. E, no entanto. Este pequeno arquipélago de 600 000 almas construiu uma das democracias mais sólidas de África e uma cultura crioula de uma vitalidade que irradia muito além das suas costas.
O Paradoxo Material
Cabo Verde não tem nada — e é precisamente isso que o obrigou a construir tudo pela inteligência e solidariedade. Classificado na faixa de rendimentos intermédios, o arquipélago vive principalmente do turismo, dos serviços, e sobretudo das remessas da sua diáspora. Cada família cabo-verdiana tem um tio em Roterdão, uma prima em Brockton, um irmão em Dacar — e estes laços transnacionais não são apenas afetivos, são económicos. O cabo-verdiano médio vive melhor do que a maioria dos africanos: o acesso à água potável, à eletricidade e aos cuidados de saúde é amplamente garantido, a esperança de vida ultrapassa os 73 anos.
A Força Ubuntu: Morabeza, o Ubuntu Crioulo do Atlântico
Cabo Verde possui a sua própria palavra para dizer Ubuntu: morabeza. Este termo crioulo designa uma mistura de hospitalidade, doçura, calor humano e generosidade espontânea. A morabeza não é uma polidez de superfície — é uma forma de estar no mundo. Esta coesão social enraíza-se na própria história do povoamento. Cabo Verde não tem população autóctone — o povo cabo-verdiano nasceu da mestiçagem entre colonos europeus e escravos africanos, criando uma cultura crioula única. Esta identidade mestiça tornou-se o alicerce de uma coesão nacional: não há tensões étnicas em Cabo Verde porque todos são, de certa forma, da mesma etnia — crioula.
« Quem ca tem cão, caça com gato »
Quem não tem cão caça com gato
— Provérbio créole cap-verdien
Cabo Verde ensina-nos que a sodade — essa nostalgia pungente que Cesária Évora ofereceu ao mundo — não é tristeza, mas sim força. É a consciência de que carregamos connosco aqueles que deixámos, e que essa presença interior é a própria fonte da alegria. Pode-se estar triste e feliz ao mesmo tempo, desde que se esteja junto — mesmo à distância.