Zâmbia: One Zambia, One Nation — o país que escolheu a paz
Num continente onde as fronteiras coloniais geraram frequentemente guerras civis e fraturas étnicas, a Zâmbia é uma anomalia feliz. Este país encravado de 20 milhões de habitantes, onde coexistem 73 grupos étnicos, nunca conheceu uma guerra civil. O slogan forjado por Kenneth Kaunda — One Zambia, One Nation — não é apenas um slogan: é a narrativa fundadora de um país que fez da coabitação pacífica a sua identidade.
O Paradoxo do Cobre
A Zâmbia está assente sobre uma das maiores reservas de cobre do mundo — a Copperbelt. Durante décadas, o cobre representou mais de 70% das receitas de exportação. A crise da dívida — a Zâmbia foi o primeiro país africano a entrar em incumprimento na sua dívida soberana durante a Covid em 2020 — revelou a fragilidade estrutural de uma economia mono-exportadora. Mas a eleição de Hakainde Hichilema em 2021, numa alternância pacífica admirada pelo continente, abriu um novo capítulo.
A Força Ubuntu: O Kuomboka, a Kalindula e o Espírito Kaunda
O segredo da Zâmbia é o seu tecido social. Kenneth Kaunda construiu deliberadamente uma identidade nacional acima das identidades étnicas. Ao impor o inglês como língua oficial, ao dispersar os funcionários fora das suas regiões de origem, ao promover os casamentos interétnicos, Kaunda teceu um sentimento de pertença comum. A cerimónia do Kuomboka — onde o rei Lozi atravessa as planícies inundadas do Zambeze — é uma das mais espetaculares de África.
« Umwana ashenda atasha nyina ukunaya »
A criança que não viaja acredita que só a mãe sabe cozinhar
— Provérbio bemba
A Zâmbia ensina-nos que a paz é uma escolha — não uma fatalidade geográfica, mas uma decisão coletiva, renovada a cada geração. Numa vizinhança de guerras, a Zâmbia resistiu. Não porque é rica, mas porque escolheu ser uma.